EDITORIAL

Sejam bem-vindos a reDOBRA #8! Como uma das dobras da Plataforma Corpocidade (http://www.corpocidade.dan.ufba.br/), iniciamos esse editorial lembrando que o evento Corpocidade: debates em Estética Urbana 2 aconteceu entre os dias 20 e 30 de Novembro em suas duas etapas – no Rio de Janeiro e Salvador -, respectivamente. Aos que participaram presencialmente ou acompanhando a transmissão pela internet, em uma ou nas duas cidades, esperamos que a experiência tenha sido tão proveitosa e intensa como o foi para nós. Entre as inúmeras reverberações desse acontecimento que já nasceu dobrado em dois territórios geográficos, mas que segue se multiplicando em n territórios, a reDOBRA vem se mobilizando em torno de uma edição totalmente dedicada ao evento.

Enquanto isso, a reDOBRA #8 convida seus leitores a uma deriva pelos  limiares entre estética e política. Como arte e cidade se problematizam, se alimentam uma da outra, se co-produzem? Que desafios se apresentam ao campo da crítica contemporânea que busca se enveredar no âmbito das transformações urbanas, da produção estética, da esfera pública e das possibilidades políticas frente às alarmantes determinações do mercado e das políticas de subjetivação dominantes sobre a vida na cidade? Essas são algumas das questões pelas quais esta edição da reDOBRA tenta se embrenhar. E nossos colaboradores [de peso!] nos levam por caminhos tortuosos, não à busca de possíveis respostas, mas à fruição da própria problematização, pela experimentação de olhares complexizantes, pela desarticulação do lugar comum e pelos variados engendramentos entre os termos visíveis e invisíveis dessas relações.

A sessão TROCAS traz entrevistas com Suely Rolnik e Vera Pallamin. Sem qualquer intenção prévia de uma troca explicitada, as entrevistas foram realizadas em momentos distintos, aproveitando oportunamente a presença das entrevistadas na ocasião de suas participações na oficina “As artes visuais como um campo transbordado: Diálogos com a filosofia, antropologia e urbanismo” [1] As duas entrevistas, entretanto, pelas questões abordadas, pelas riquíssimas contribuições aos campos problematizados, apresentam inúmeros pontos de interseção, o que evidenciou, naturalmente, a possibilidade de trocas.

Ao mesmo tempo esclarecedora e provocadora, a entrevista com a professora e pesquisadora da FAU-USP Vera Pallamin traz relevantes reflexões sobre arte urbana e sua relação com o mercado, sobre o papel e a potência da atividade crítica, além de contribuições a uma visão ampliada da política abordando entre outros conceitos, a amizade, o conflito e o dissenso. A entrevista com a professora e pesquisadora do núcleo de subjetividade da PUC-SP, Suely Rolnik, nos ajuda a pensar pelos caminhos da micropolítica, as relações entre arte (ou criação),  vida na cidade e  produção de subjetividade, demonstrando a importância das inscrições dos processos históricos na memória do corpo e sua capacidade paradoxal que é ao mesmo tempo de sujeição aos traumas e da vontade de liberação dos mesmos pela potência de criação.

Em JOGO E CATIMBA, Cris Ribas, no exercício da crítica detida sobre o trabalho de Guga Ferraz, produz um texto cujas estratégias de escrita – sobreposições, diálogos, repetições, sonhos, tráficos – realizam a idéia proposta por Vera Pallamin na entrevista da crítica enquanto produção de alteridade. Algumas indagações são levantadas e pulverizam-se no jogo textual proposto por Cris, um conjunto de imagens do pensamento que excedem o próprio trabalho abordado.

O TUMULTO forma-se em torno do filme “Tropa de elite 2” à partir de ensaios perturbadores das relações entre política, policia, ética e estética.  A redobra #8 convidou pensadores intrigados com tais relações para instigar tumultos-críticos com esta recente produção cinematográfica. O professor do Instituto de Humanidades, Artes e Ciência (IHAC_UFBA) Fernando Ferraz trata da “Mercancia da não-morte” sob a ótica da biopolítica e pergunta sobre o cinismo de “que serviço é este que é vendido?”; Joaquim Viana Neto, professor do mesmo Instituto, aponta para a idéia do “duplo corpo da tropa”,  dobras entre corpo ficcional, corpo antagônico e corpo social produzidas em movimentos ilusionísticos; e por fim Washington Drummond e Alan Sampaio discutem em “a cidade e seu duplo” os regimes de imagens implicados no contexto da estetização da realidade.

Sempre abertos a experimentações, nesta edição a  reDOBRA vem com visual ‘minimalista’, mas não sem motivos. É que o artista convidado Pedro Filho desvia da imagem pra realizar sua INFILTRAÇÃO por vias sonoras. Jogando, distorcendo, recriando sons capturados por aí, em conversas, em músicas ou nas ruas, Pedro articula ruídos em sons, ritmados em composições inusitadas e repletas de referências. Para se deixar infiltrar basta dar o play no ícone cinza abaixo dos títulos das matérias.

Em FERRAMENTARIA Augusto Leal nos ensina literalmente a serrar, furar, lixar, aparafusar para construir um objeto curioso, mas cheio de potência: a bibliocicleta. Acoplando esse veículo que nós amamos a uma biblioteca ambulante, o artista leva a força da leitura à bairros populares e áreas públicas da cidade pela instauração de uma biblioteca efêmera, estimulando uma visada renovada a esses dois velhos, mas maravilhosos, artefatos movidos à energia humana: o livro e a bicicleta.

Na sessão CORPOCIDADE, comunicamos o lançamento do livro homônimo “Corpocidade: questões, ações e articulações”. Organizado por Fabiana Dultra Britto e Paola Berenstein Jacques , o livro é um compartilhar dos acontecimentos e produções reunidos no primeiro evento, além de alguns de seus desdobramentos mais significativos, entre eles uma seleção de matérias do primeiro ano da reDOBRA, arranjados no sentido de um livro-cartografia.

A redobra #8 despede-se de 2010, dos nossos leitores, colaboradores, conselheiros, aliados  com a alegria festiva da amizade no sentido de uma tática política. Ficamos na expectativa de que esta última edição do ano seja apreciada na duração do tempo do descanso, da folga, da suspensão das urgências e convidamos vocês a uma leitura lenta, no sentido proposto por Milton Santos, para que encontrem surpresas, produzam alteridades e revirem-se em vésperas de 2011.

publicado em 20.12.2010

______________________________

[1] mais informações ver sessão contágio publicada na redobra 6 em http://www.corpocidade.dan.ufba.br/redobra/r0. Aproveitamos para agradecer Silvana Olivieri, coodenadora do projeto “Campo transbordado”, cuja prontidão ajudou a viabilizar ambas entrevistas.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

*

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>